quarta-feira, 10 de agosto de 2022

A LINHA

 

Ó linha da minha tristeza e da minha alegria

Que serpenteias como uma bala ao vento

5 estações bastam para chegar ao topo da avenida


Pontas dos dedos queimadas pela lixívia

D'uma vida toda a lavar as escadas dos palácios dos outros

Toda a raiva contida num baque surdo

Toda a raiva subterrânea que agora transborda dos esgotos


A multidão acotovela-se mas ombreia

E o comboio desliza rumo à serra lunar

O mundo roda para fora do eixo

A cidade dorme e não esquece





sexta-feira, 13 de maio de 2022

QUANDO CHEGAR O VERÃO


Quando chegar a verão

As flores devem morrer

Os espinhos da rosa murcharão

Para que outro alguém possa renascer


Quando chegar o verão

Ficam para trás sonhos de outras areias

Que abandonaram deserto o meu coração

Mas criaram ramos nas suas veias


Ao mês de março que me foi querido

Deixo a esperança morta à sede de água

Deixo partido e curado em mágoa

O meu amor num dezembro ferido


domingo, 9 de janeiro de 2022

POEMA X


Escrevo neste papel timbrado de lágrimas

Sobre o cadáver fresco do nosso amor

Mergulho numa lagoa de águas acérrimas

Onde flutuam as pétalas da defunta flor


Qual foi a herança por ti deixada?

Quando a tua sombra me assombra pela madrugada

A nossa morte foi velada pela noite cerrada

Foi quebrada uma promessa pelos astros selada


A lágrima cai no papel em tinta metamorfoseada

Onde escrevo com as mãos que deixaste vazias

O coração fraqueja, o peito arqueja, o ar é quase nada

Uma sepultura para dois, era isto o que querias?


No vácuo inerte dos meus braços

Jaz agora o meu mundo em pedaços

Mais uma vez tropeço nos meus passos

Por calçadas tristes e amores escassos



Poema a duas mãos com Jinx